sábado, 23 de maio de 2015


A ORIGEM DA EXPRESSÃO, "A CONVERSA 
AINDA NÃO CHEGOU NA COZINHA"
Somos constantemente incitados a "opinar", "participar", "fornecer informações sobre o que achamos sobre todo e qualquer assunto". Síndrome do Homo Loquax, como diria Bergson. E nisso, permanecemos fechados em nosso mundo privado, preguiçosos demais para pensar e nos lançar sobre o novo, escravos do reconhecimento perpétuo.
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Certo senhor, que era um excelente chef de cozinha, costumava receber a sua casa dois grandes amigos, um era biólogo e um professor de filosofia. E sempre se dava um evento mais ou menos assim: os dois amigos ficavam maravilhados, quase em êxtase com os pratos que o chef apresentava. Esse chef não apenas era um grande cozinheiro, mas também um excelente palestrante, e temperava os pratos com descrições precisas, quase poéticas, que chegavam quase a divinizar os sabores. Também ele era um exímio conhecedor de muitas coisas relacionadas à História da culinária e certas curiosidades gastronômicas de vários povos, bastante chocantes; tudo apresentado com o requinte de seus dotes retóricos. Também ele detinha talentos quase mágicos de saber o quanto salgado estava a comida apenas pelo cheiro... Pois bem, esses dois amigos quedavam fascinados com os profundos conhecimentos do chef, que se entusiasmava com seus temas e os apaixonava. O chef se deliciava ao ver os dois célebres amigos, que já tinham livros publicados, eram professores renomados, ali, boquiabertos com sua comida e curvados a sua erudição. Mas de repente ou vagarosamente, os dois amigos introduziam outros assuntos, as delicadezas de um conceito filosófico, funções científicas, debates a cerca da evolução, etc... O anfitrião que já estava empolgado em falar, sentia-se ultrapassado, e se metia a dizer coisas como "não concordo!", "não é assim!", "isso está errado!". Bem, a verdade é que visceralmente ele tinha intolerancia a assuntos que em sua casa que ele não dominava, não suportava ser forçado a ouvir e pensar em outras coisas - que não as suas. Os dois amigos, que eram dele muito íntimos, e além de tudo, eram, digamos, um tanto crueis e bem humorados, diziam sempre às gargalhadas, "calma aí, amigo, que a conversa ainda não chegou na cozinha!"