terça-feira, 12 de maio de 2015

Alienação
Hoje muito se fala de alienação. Televisão, internet, juventude alienada. Embora talvez estudos filosóficos possam melhor cumprir o papel de discussão sobre alienação, o contexto político e econômico de nosso país e de nosso mundo é diretamente afetado pelo engajamento ou alienação que se observa na nossa sociedade. Assim, discutir alienação é muito importante para entendermos e melhorarmos o quadro econômico, político e humano de nossa sociedade.
Neste texto discute-se o tema “alienação”, não com uma fundamentação filosófica, sociológica ou fisiológica extensa ou reconhecida, mas abordagem voltada para se repensar valores e fenômenos em nossa sociedade atual. A proposta é explorar o tema alienação como objeto, suas causas, efeitos e sintomas, tanto no indivíduo como na sociedade. E, em acordo com o propósito deste site, também serão abordados os efeitos que a alienação, o afastamento das pessoas da discussão e participação dos temas econômicos, sociais e políticos acarretam para a deterioração da qualidade de vida das pessoas e da sociedade.
Conceito de Alienação
O mais incrível da realidade é que ela é subjetiva. Melhor dizendo, como já se filosofava na Grécia Antiga, mesmo os “fatos reais” da vida são diferentes para pessoas que interpretam diferentemente estes mesmos fatos. Assim, o que para uma pessoa pode ser uma necessidade real, para outra pode ser uma futilidade sem propósito algum. Isto torna a definição de alienação completamente subjetiva, dependente do sujeito e do contexto considerado.
Por serem os seres humanos diferentes entre si, com valores diferentes entre si, o “importante” e o “real” passam a ser subjetivos, sendo praticamente impossível julgar o que seria uma alienação, uma vez que não há um consenso sobre o que é o “importante”.
A interpretação dos conceitos “real” ou “importante” ser subjetiva é devida à natureza humana, os valores coletivos, à bagagem genética, à experiência pessoal e a tudo mais que define a cognição de cada pessoa. Até por isto, até um texto como este, tendo sido escrito por uma pessoa com sua própria bagagem cognitiva, necessariamente carrega uma visão da vida e dos fatos reais que talvez não corresponda completa e imparcialmente ao conceito “realidade” como normalmente aceito.
No sentido deste texto, alienação é o afastamento da pessoa da realidade e do que é importante para sua própria vida. É quando os pensamentos, vontades, atitudes, e crenças de uma pessoa se afastam dos fatores que realmente são importantes para sua própria vida. E, na composição das perdas dos valores individuais, estende-se o fenômeno para a sociedade como um todo.
Que este texto seja considerado, portanto, não como uma visão definitiva de valores, mas como uma discussão, que permita ao leitor julgar e interpretar as idéias a seguir conforme seu próprio entendimento.
Apenas para nortear a discussão, de certa forma tentando buscar um censo comum, poderíamos chamar de “importante” e “realidade” as coisas que o ser humano e a humanidade precisou, ao longo de sua existência, para sobreviver e evoluir e, juntamente, os valores que permitiram este feito. E alienação, o afastamento deste conceito.
Formas de Alienação
Uma pessoa pode voluntariamente alienar-se, afastar-se de uma discussão, de um tema, de uma responsabilidade ou mesmo do simples conhecimento de um fato. A mesma interpretação pode ser estendida a uma sociedade, na medida que coletivamente as pessoas desta sociedade escolhem alienar-se.
A alienação pode ser também involuntária, quando uma pessoa ou a sociedade é levada à alienação, quando a discussão ou apresentação de um tema é afastada ou evitada, ou quando falsos conceitos lhes são apresentados como verdadeiros. Ou seja, a participação da pessoa ou da sociedade num tema, discussão, responsabilidade ou até no simples reconhecimento de um fato é dificultada ou evitada por algumas pessoas ou entidades específicas (na maioria das vezes em acordo com os interesses destas pessoas e entidades).
Mas, a alienação torna-se completa quando as duas formas de alienação ocorrem simultaneamente, ou seja, os fatos ou discussões são evitados ou distorcidos e ainda por cima a pessoa ou sociedade prefere evitar questionamento sobre estes temas e discussões.
Olhando a fundo, esta forma conjugada (voluntária e involuntária) de alienação torna-a mais abrangente e ao máximo prejudicial ao indivíduo e à sociedade. E é muito mais comum do que se imagina. Seguem alguns exemplos:
Exemplos de Alienação
Uma mãe que deixe de dar atenção ao que seu filho fala ou pensa porque está assistindo novela, ou uma criança que deixe de estudar para passar a tarde inteira no Orkut ou no videogame, ou a jovem que deixa de prestar atenção a conselhos importantes de seus pais por estar entretida com as funcionalidades de um celular.
Em princípio os casos acima parecem formas de alienação voluntária, a mãe que não quer saber dos problemas do filho, ou a criança que não quer estudar. Mas, há mais um fator importante envolvido, que é a disponibilidade de uma ferramenta de alienação: a novela, a rede social e o telefone celular mal utilizados.
Deixemos para discussão sobre quem são as pessoas e entidades interessadas em ocultar discussões, quais sejam estas discussões e o interesse que há por trás desta alienação mais para frente. Concentremo-nos agora nas ferramentas de alienação utilizadas:
  • Televisão – programação      que não agrega valor, não promove a discussão e muitas vezes propaga      falsos conhecimentos, promove agressividade, consumismo, banalização da      violência e da ignorância. Basta um olhar crítico para revelar como as      novelas, filmes, até noticiários e desenhos animados infantis induzem as      pessoas e a sociedade a se distanciarem dos valores e atitudes que      realmente deveriam ser considerados importantes
  • Internet, telefone      celular – ao mesmo tempo em que pode ser uma ferramenta poderosa para      promoção de discussão, pode também ser usada para atividades que em nada      agregam valor ao indivíduo ou à sociedade. Como a televisão, a internet      mal utilizada pode promover alienação por “perda de tempo” (sites de      relacionamento, jogos, atividades lúdicas), ou por propagação      conhecimentos prejudiciais ao indivíduo e à sociedade (sites de propagação      do nazismo e outras formas de discriminação; sites que abusam da      ingenuidade das pessoas para obter vantagens indevidas, como falsas lojas,      instaladores de vírus, obtenção de dados pessoais; jogos de agressividade,      que promovem no indivíduo a banalização da vida e de outras pessoas, etc.)                                                                                                                                        Moda
  • Revistas, moda – muitas      revistas e meios semelhantes de comunicação em massa, da mesma maneira que      a televisão ou internet, trazem conceitos, valores, padões de beleza e      ideais pouco relacionados aos aspectos realmente relevantes e importantes      para a humanidade ou para que a pessoa viva uma vida sadia. Claro, alguma      manifestação de moda ou mesmo de banalidades que possa existir (de forma      moderada) é uma manifestação cultural, é um valor tipicamente humano,      agregado a sua essência, e que portanto merece o devido valor. O problema      é, como sempre, quando estes conceitos são sobrevalorizados, servindo como      instrumentos de alienação
  • Futebol – não somente      futebol, mas também outros esportes, da maneira como são propostos em      nossa sociedade, exacerbando uma competição que não deveria ter mais      importância do que uma atividade esportiva e social corriqueira. Na mídia      o esporte é proposto como uma atividade não de integração social em torno      de práticas esportivas, mas como uma disputa, quase uma guerra entre duas      torcidas, duas sociedades. Há pessoas que morreriam ou matariam por um      time de futebol, sem sequer considerar racionalmente sua preferência por um      time ao outro.
  • Nacionalismo – apesar de em      alguns casos muito específicos o nacionalismo ser racionalmente defensável,      como quando o indivíduo julga serem seus valores mais importantes que os      que estariam sendo impostos por nações estrangeiras, a maior parte das      pessoas jamais se questionou sobre os fundamentos de seu nacionalismo. Sequer      questionou a natureza do estado ou sua legitimidade. As pessoas talvez não      se questionassem, no caso de uma eventual guerra, se o governo que      defenderiam com a própria vida é digno. Ou seja, o indivíduo se aliena até      dos conceitos mais importantes para garantir a própria vida sem sequer      buscar compreender por quais valores está lutando
  • Religião – a religião      em si é uma manifestação humana e, conforme explanado acima, o conceito de      “importante” e “real” são subjetivos. Como tudo mais, a diferença entre      importante ou fútil é subjetiva, assim é difícil traçar uma verdade      absoluta. Mas, considerando que o indivíduo que traça todos seus objetivos      e atitudes em função dos conceitos religiosos, aquele que pouco reflete se      tais conceitos são sãos ou parciais, aquele que considera sua religião      acima das demais sem refletir sobre por qual motivo o seria, este pode ser      considerado alienado, uma vez que propõe a religião acima de valores      básicos da vida, sem o devido discernimento, e possivelmente causando      prejuízo a si próprio
  • Consumismo – o      consumismo na verdade é conseqüência da alienação do indivíduo sobre suas      reais necessidades de consumo. Entretanto, está gradativamente tornando-se      uma forma de alienação em si, na medida em que o indivíduo passa a usar o      consumo como refúgio para não dedicar-se aos esforços, entendimentos e conceitos      a que deveria realmente dedicar-se.
  • Isolamento – uma pessoa      fechada num carro atravessando uma região de pobreza absurda, sem      constranger-se ou indignar-se, ou uma pessoa na frente de um computador,      de uma TV ou outra forma de ostracismo, com o objetivo de alienar-se dos      problemas reais por que passa a si próprio ou a sociedade
Alienação de Massas
A televisão e a internet são ferramentas de alienação mais recentemente desenvolvidas e se assemelham muito entre si, são muitas vezes “viciantes”. Por outro lado, o nacionalismo e a religião (e os esportes, funcionando quase que como guerras virtuais) são usados há séculos, milênios, como forma de propor ao indivíduo que se aliene de seus valores mais básicos em defesa de valores que às vezes são contrários aos seus próprios.
Não que toda forma de alienação seja nociva. O ser humano, em sua natureza, busca não somente atitudes produtivas e racionais, ele pretende também entretenimento e distração, um certo grau de alienação da realidade. Há casos em que alienação torna-se inclusive necessária ao indivíduo. Há momentos na vida em que é melhor alienar-se, para recompor-se e mais tarde enfrentar problemas que hoje possam lhe ser impossíveis. Há valor em uma pessoa tomar tempo para si, para entretenimento, socialização através da internet, redes sociais, mesmo assistir televisão. Faz parte da formação individual, cultural e social de cada um. Usadas com moderação e responsabilidade, todas as ferramentas acima podem ser benéficas à pessoa e à sociedade. O problema é quando a alienação é a regra e não a exceção, quando alienar-se se torna de maior importância e ofusca os valores pelos quais a pessoa ou a sociedade deveria realmente lutar.
Conceitos importantes para a VidaPirâmide de Necessidades
Em princípio, cada indivíduo tem sua própria escala de prioridades e valoriza diferentemente determinado bem ou vantagem, então qualquer escala é arbitrária. Entretanto, numa interpretação particular que convido o leitor a compartilhar (e julgar conforme seus próprios princípios), considerarei que as coisas realmente importantes para o ser humano sejam basicamente relacionados à manutenção da vida, seguidos por vida em sociedade e por qualidade de vida (segundo a interpretação da pirâmide de necessidades ou pirâmide de Maslow):
A qualidade de vida é portanto atingida englobando-se a manutenção da vida em boas condições (bons alimentos, segurança adequada, boa saúde, boas condições de habitação, etc.) e boas relações sociais (onde se compartilhe com outros indivíduos num ambiente de respeito, consideração, cooperação, etc.) e condições de conforto e culturais. Se as necessidades de Manutenção de Vida, Relações Sociais e algumas condições básicas de Qualidade de Vida foram satisfeitas, provavelmente teríamos as condições mais importantes ou talvez suficientes para tornar feliz e pleno um indivíduo ou sociedade. No mínimo, as condições econômicas para tal estariam garantidas, restando à pessoa ou à sociedade a responsabilidade própria de desenvolver em sua plenitude as condições do topo da pirâmide de Maslow.
Em contraposição, supérfluos, futilidades
Em contraposição às verdadeiras necessidades que o indivíduo e a sociedade têm para desenvolver-se em sua plenitude, como descrito acima, observa-se atualmente um fenômeno importante de busca por supérfluos e futilidades. Ou seja, apesar de os objetivos “importantes” acima não serem atingidos de maneira satisfatória, busca-se atender preferências supérfluas e totalmente dispensáveis.
Exemplos deste comportamento são corriqueiros, como o de uma jovem que tenha emprego mal remunerado, mas que faz questão de usar tênis de marca; ou o de um trabalhador que garanta a si e sua família más condições de alimentação e vestimenta por ter assumido financiamento de um carro novo.
E são fenômenos que vão muito além de consumo. Há por exemplo o caso da grande maioria dos estudantes, que preferem não dedicar-se aos estudos e passar o dia e a noite em atividades potencialmente nocivas ou inócuas, como assistir a televisão (com uma programação deplorável) ou ficar conectado na Internet, em sites de relacionamento ou atividades nem um pouco instrutivas (e muitas vezes destrutivas).
Há, claro, a necessidade do ser humano de entretenimento e momentos de prazer e despreocupação. Alguma futilidade é justificável e até benéfica. Também há o fator liberdade, que deve ser garantido acima de tudo (ninguém tem o direito de estipular ao indivíduo o que ele tem ou não tem direito de consumir). Mas o que se quer mostrar neste artigo é que as pessoas e sociedades estão atualmente orientadas a futilidades, sendo quase toda a dedicação do indivíduo focada em valores inúteis e desvirtuados, enquanto atividades importantes estão sendo deixadas à margem.
Ou, pensando de outra maneira (num paralelo com o valor do tempo no ambiente econômico), se está dedicando muita atenção à satisfação de objetivos do topo da pirâmide de Maslow no curto prazo, em detrimento da qualidade de vida mais essencial (base da pirâmide) num médio e longo prazos. Em outras palavras, observa-se um imediatismo inconsequente na nossa sociedade e ela própria não se dá conta da profundidade deste fenômeno, de tão alienada que está das discussões mais importantes que afetam a humanidade e os objetivos e valores de médio e longo prazo
Não é de admirar a desintegração social que se observa em nossas sociedades ao redor do mundo.
Quem ganha com a Alienação
Talvez esta parte seja a mais repetida e alardeada, talvez tenha já sido dito e repetido ao redor do globo e em todos os artigos deste site, quem são as pessoas e entidades que lucram com a ignorância e alienação da sociedade em relação aos temas realmente importantes de discussão (lembrando que o conceito “importante” é subjetivo, como explicado acima). Não custa repetir.
Seguem abaixo algumas das entidades que têm interesse e promovem ativamente a alienação social:
  • Governos – os governos      se mantém graças à alienação do indivíduo em relação ao valor de sua      própria liberdade e autonomia. Os políticos, por sua vez têm imensas      vantagens por deter o poder de governar, e a alienação é forte aliada para      o controle e manutenção da ordem estabelecida
  • Bancos – os bancos      têm benefícios imediatos e de longo prazo devido à transferência de      riqueza possível com a alienação do indivíduo em relação a seus direitos e      sobre os fenômenos econômicos e sociais a sua volta. Entretanto, deve-se      considerar que os interessados são os banqueiros, não os bancos. Bancos      são somente ferramenta para transferência de riqueza
  • Empresas poderosas – algumas      empresas poderosas lucram com a manutenção do sistema, como as      petrolíferas, armamentistas e em menor escala todas as empresas de      produção de bens dispensáveis (ou seja, bens que não seriam consumidos se      a sociedade não fosse alienada dos valores realmente importantes para a      vida, sociedade e qualidade de vida)
  • Mídia de Massa – são      empresas poderosas, utilizadas como ferramenta de alienação, auxiliares      para manutenção do sistema (alienação é essencial), e portanto são      favorecidas pelos Governos, Bancos e Empresas poderosas acima
A motivação destas pessoas e entidades, os mecanismos de obtenção de vantagem, as verdades mal contadas para ocultar a verdadeira verdade, estão explicados em detalhes nos diversos artigos deste site e de vários outros, dentre os quais destaca-se o Instituto Mises (www.mises.org.br). Convido o leitor a aprofundar-se no entendimento destas mentiras bem contadas e dos mecanismos de enriquecimento utilizados, o que certamente esclarecerá o contexto que envolve a alienação social que se observa dentro de cada lar neste país e em quase todo o mundo.