domingo, 17 de maio de 2015


Me abandonaram, quando o que 
Eu só consegui fazer foi amá-los
Sobre uma realidade obscurecida, que quase ninguém se importa. É apenas um conto, mas um dia todos nós envelheceremos e o que vão fazer com a gente quando nós não formos mais capazes de determinar nosso futuro?
Tinha entre meus treze, quatorze anos quando comecei a trabalhar. Era um trabalho duro, tinha que enfrentar o sol, o suor, a fome e dias longos. Mesmo com dificuldades, tinha uma vida feliz, meus pais e meus irmãos eram bastante unidos e adorávamos tocar uma viola a noite, comendo uma boa comida do campo.
Quando fiz meus quinze anos, ao invés de bolo e balões, ganhei uma égua, fiquei feliz por demais! Naquele tempo ter uma égua era como ter um carro nos dias de hoje. Tudo bem que ela não era exclusivamente minha, mas criamos um laço muito forte de amizade. Só tinha irmãos e adorava brincar com eles, mas a minha égua era sem dúvida, minha melhor companhia. Dei o nome a ela de Serena, encontrei em algum livro que tinha na escola e achei um bom nome. Gostava também de estudar, tive a sorte de ter professoras que me incentivavam muito a ler e por mais que haviam poucos livros na escola, eu adorava trazê-los para casa e lê-los em voz alta para Serena. E assim foi passando a minha adolescência.
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Era primavera e a escola resolveu fazer uma comemoração para a turma que estava se formando. Coloquei meu melhor vestido, minha mãe fez uma trança nos meus cabelos e fui. Havia formando de outras turmas também, pessoas que nunca tinha visto antes. Estava conversando com algumas amigas quando o vi pela primeira vez. Ele estava encostado em um poste, usava um paletó meio largo e me encarava de modo descomunal. Já tivera alguns casinhos antes, mas o sentimento que fui criando por ele era completamente diferente do que já havia sentido.
Me casei aos 18 anos. Uma época em que a maioria de minhas amigas já haviam casado. Mas soube que era o homem certo e as coisas aconteceram devidamente no momento em que deveriam acontecer. Nossa casinha era bastante pequena, mas ali fomos muito felizes. Tivemos nosso primeiro filho depois de um ano, nossa menina três anos mais tarde e o nosso caçula um tempo depois. Ensinei cada um a dar seus primeiros passos, a falar, a escrever, a pegar gosto pela leitura... Mais tarde mudamos para a cidade, os levava para a escola todos os dias antes de ir trabalhar, queria um futuro para eles e fazia o meu melhor para poder garantir-lhes a oportunidadeque eu não tive, de fazer uma faculdade e de escolher sua própria profissão.
Os anos passaram, vi cada um deles se formarem, se tornarem doutores, construir suas famílias. Minha menina foi a primeira a se casar, depois foi o mais velho e o mais novo. Os netos começaram a chegar e eu adorava cuidar deles também, os mimava sempre que podia. As oportunidades foram chegando e meus dois meninos se mudaram para outras cidades, um pouco longe de mim, mas eu sabia que o que realmente importava era a felicidade deles. Eu os tinha criado para terem o sucesso que eles tinham e mesmo sabendo disso, eu confesso que não imaginaria que eles se afastassem tanto assim.
Havia novamente só eu e meu marido em casa. Vez ou outra, minha filha vinha nos visitar durante a semana e aos domingos a família toda se reunia. Era um prazer imenso ver meus três filhos, meus netos, minhas noras, meu genro e o amor da minha vida sentados a mesa, elogiando minha comida e rindo da vida. Pensava que não poderia existir vida melhor, sabia que todo o nosso trabalho e esforço tinham valido a pena.
Alguns anos se passaram, não pude evitar a dor imensa que senti quando meu amor se foi. Ele lutou o quanto pôde com a sua doença no rim, mas não resistiu. Tive a sensação que aquele dia foi o pior dia que me ocorreu. Muitos outros ruins estavam por vir, e eu nem imaginava que haveria possibilidade da minha dor se multiplicar. Meus pais também se foram alguns anos mais tarde, resistiram por um longo tempo as marcas do campo e do cansaço. Foram fortes. Meus irmãos também, era triste ver meu mundo sendo diluído aos poucos, um de cada vez. As dores corporais também foram vindo, eu já não era tão capacitada a completar todos os meus afazeres, o envelhecimento é inevitavelmente doloroso. Tomava uma porção de remédios para uma porção de coisas.
Era domingo e os meus filhos foram almoçar em casa. Eu tinha esquecido que era domingo, tinha esquecido que eles viriam e não tinha feito o almoço. Essa já foi a terceira vez que eu esqueço e não fazia ideia do porque havia esquecido um evento tão importante. Eles estavam um tanto quanto cautelosos demais, me faziam perguntas estranhas e por fim disseram, entre um sussurro e outro, que o melhor era eu me mudar para um lugar mais, deixe-me lembrar... "aconchegante e que possa atender às minhas necessidades".
Meus filhos, que eu criei com tanto amor, com tanta luta e esforço para serem o que são, querem agora me botar em um asilo qualquer, para qualquer tipo de gente cuidar de mim do jeito que eles acham que é a melhor forma. Eu fui relutante até o último momento. Não era uma comida prestes a estragar que tinha que se dar um jeito para não apodrecer. Mas não teve jeito, quando vi já estava lá, um lugar em que não conhecia ninguém, tinha raiva de existir porque parecia que existir era um incômodo para meus filhos. Eu não queria que uma pessoa desconhecida me desse banho, comer uma comida que eu nem sei da onde veio. Nunca quis ter esse tipo de vida. Perder as coisas que eu amo, as pessoas que eu amo, a mim mesma. Eu sabia que um dia eu ia acabar esquecendo de tudo mesmo, se nenhuma doença me pegasse de jeito antes, mas nunca pude cogitar a hipótese de que iriam me esquecer aqui.
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Me abandonaram, quando o que eu só consegui fazer foi amá-los. Meus filhos, que tanto fiz e pouco me fizeram. Achei que tinha sentido dores suficientes para uma vida. Mas agora, acho que nenhuma outra se compara a essa dor.