domingo, 17 de maio de 2015


O MURO QUE HÁ EM NÓS
Criar uma obra que fique para a eternidade, que conquiste diversas gerações, que se passem décadas e continue atual, este é o desejo de todo artista. Antes mesmo de querer agradar a todos, ele deseja eternizar sua obra. THE WALL foi uma destas criações. Nela e em tantas outras, o Pink Floyd consegue levar ao mundo a sua arte, que já é eterna.

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THE WALL, a ópera rock mais famosa do mundo foi lançada no ano de 1979 quando o movimento “hippie” já havia ultrapassado o seu ápice e abria espaço para a nova geração que encontrou no rock progressivo um novo estilo de vida e forma de expressão musical. Neste ano o mundo viu o Irã transformar-se em uma monarquia islâmica, A guerra fria, eterna e virtual luta entre comunistas e capitalistas estava mais gelada do que nunca, no Brasil o último presidente militar ascendia ao poder e escriba que vos fala completava seus 9 anos de vida.
Alguns anos antes Roger Waters e seus companheiros do Pink Floyd realizavam uma turnê chamada “In the flesh tour” com shows em grandes estádios para grandes públicos. Este tipo de espetáculo não era exatamente o que Waters tinha em mente, achava algo muito sem conteúdo, não havia a interação desejada entre a mensagem da música e o público que assistia.
Em uma destas apresentações, incomodado com alguns fãs que faziam muita bagunça perto do palco, Waters chegou a cuspir nestes integrantes da platéia, atitude jamais imaginável vindo de um astro da música para com seu público.
Em uma conversa íntima com integrantes do staff da banda, Waters questionava a forma do show, grandes estádios, grandes platéias, aquilo fazia banda e público se afastarem, tomarem outro rumo do proposto pela obra, disse Waters que gostaria de levantar um muro entre o palco e a platéia, desta forma se isolar e poder fazer sua arte sem a presença de estranhos que não estariam em sintonia com a idéia da música.
Juntou-se a este desejo de erguer um muro no palco, outras questões pessoais de Waters, recordações da infância, da escola, da adolescência, problemas conjugais, as mortes nas guerras, pressões da vida de um astro pop, convivência conturbada com sua mãe e tudo isso misturado na cabeça de um artista acabou virando, como era de se esperar, ARTE!
A ópera THE WALL conta a história de uma pessoa perturbada pelas dores da vida moderna, há uma forte crítica ao modelo formal de educação, onde professores são retratados como ditadores, onde a escola transforma pessoas em massa de manobra, em carne moída, em cidadão padrão, pessoas aptas a atender as necessidades do sistema político dominante.
Em “Mother” há toda uma expressão de dor e tristeza nas relações entre mãe e filho, onde a mãe é protetora ao extremo, ao ponto de estabelecer regras até mesmo para os relacionamentos amorosos dos filhos. A mãe também ajuda a construir o grande muro que isola as pessoas do mundo. A frase final da música é uma pergunta: “Mãe, precisava ser assim tão alto?”
Não há como não ouvir “Comfortably numb” e não sentir-se confortavelmente anestesiado. Mesmo que você não entenda uma palavra sequer em inglês, a melodia transmite paz e tranquilidade, nesta música há toda uma descarga de energia nas drogas que aliviam a dor, a tensão e o stress do astro pop, que recebe uma cobrança mil vezes maior que nós pobres mortais que não somos o foco da imprensa sensacionalista todo dia. O solo da guitarra de Guilmour é algo que resume todo este alívio das tensões da vida moderna, ouça com mais atenção e perceba a sensação de alivio que a música causa.
Mesmo aquele que nunca se interessou pela obra do Pink Floyd, ao ouvir o riff da guitarra tocado apenas no acorde de ré menor, que marca a música mais lembrada da obra “Another brick in the wall”, identifica imediatamente a banda e a música e mesmo falando um inglês que mais parece chinês com sotaque francês, mentalmente canta “hey teacher!! Live the kids alone…”
Este é o ponto mais marcante da ópera composta pelo Pink, é o momento que expressa a revolta contra o sistema, ali representado pelos professores. É um protesto muito pesado contra a forma como somos educados por nossos pais e professores. Ela se resume perfeitamente na expressão: “Somos apenas mais um tijolo no muro”.
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Quando comecei a aprender ouvir Pink Floyd sempre me diziam: “Ouça a obra toda, do início ao fim, não pule as músicas”. Pode parecer meio estranho não pular as músicas, ouvir só as que eu gostaria de ouvir, mas as obras do Pink contam estórias, elas possuem inicio, meio e fim. Para entender a obra de um artista é preciso apreciá-la várias vezes, deixar nossos conceitos de lado, repensar muita coisa do que fazemos e comparar com a mensagem que o artista nos transmite, ai sim, seremos críticos de nós mesmos, sem precisar ler sinopses ou resumos de jornais.
Vamos ouvir novamente “The Wall” e utilizar esta obra para refletir:
O quanto de muro há ainda em nós?
Quanto deste muro erguemos pelos males da vida moderna?
Quantas pessoas do nosso convívio nós transformamos em tijolos para erguer estes muros?
Este muro serve para nos proteger do quê?
E a pergunta final: Será que conseguiremos transformar este muro que separa, em ponte que une?