domingo, 17 de maio de 2015


O OLHAR E
SUAS TRADUÇÕES
Vivemos em tempos nos quais o olhar está se tornando um exercício raro na arte da comunicação, da relação. Muita coisa importante se perde quando negligenciamos o hábito de olhar nos olhos dos outros, da vida. Muito se ganha e se aprende quando investimos nele. Os horizontes se ampliam e histórias se criam!

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Mônica tinha 19 anos de idade quando deu entrada na clínica de queimados com lesões em 85% da área corpórea. Havia ateado fogo ao próprio corpo numa tentativa de suicídio. Encontrei-a num leito da UTI onde havia iniciado um estágio como estudante de enfermagem durante meus tempos de faculdade. A visão dela era muito dramática, desfigurante, como queimaduras muito extensas e graves são.
O primeiro olhar partilhado entre nós foi de curiosidade. Duas desconhecidas tentando decifrar uma a outra. Me apresentei como a pessoa que iria lhe prestar cuidados no período da manhã na clínica. Notei que os únicos lugares do corpo dela que não estavam queimados eram parte de uma das mãos, um dos pés e metade do rosto. Me aproximei mais, segurei a parte não queimada da mão dela. Queria tocá-la para que se sentisse aceita, reconhecida e também porque sempre gostei de pegar na mão dos meus pacientes ao encontrá-los, como forma de quebrar o gelo do estranhamento ou formalidade. Mônica falou um pouco dela e eu um pouco de mim. Estabelecemos um canal de comunicação que foi muito positivo, já de imediato. Falava pausadamente, um tanto ofegante, com brilho no olhar, mas com tremor na voz porque dor era mais do que um fantasma para ela, era um pesadêlo com olhos abertos. Vivia em ondas oscilantes de consciência e delírio por conta das altas doses de medicação que recebia.
Desde o começo, cuidar dela foi motivo de grande gratificação para mim, apesar da gama de sofrimento envolvido neste cuidado. Os banhos de leito eram especialmente dramáticos. Era preciso um compromisso de cooperação de ambas as partes, "teamwork", porque era um duelo contínuo com dor, agonia, angústia. Todo cuidado era pouco para retirar as camadas de pomada e tecido morto que cobriam o corpo dela. Envolvia sempre intenso sangramento. Nestes momentos, os olhares trocados eram muito enfáticos em significado. Lia neles confiança em mim, apelo por delicadeza e atenção no toque nas áreas queimadas, sobretudo, a importância de uma inabalável compreensão mútua no processo do início ao fim. O banho durava em média duas horas para ser concluído. Parava em pequenos intervalos para que ela tivesse tempo de "descansar" um pouco a dor. Mônica por vezes gritava outras vezes chorava, se contorcia, mas sabia aquilo era parte essencial do tratamento. Quando finalmente o procedimento chegava ao fim, era o olhar de alívio, gratidão mútua na parceria, carinho e vitória. Ela então caía no sono de exaustão. Aquela moça linda de 19 anos tinha uma garra enorme. Estava sempre tentando segurar as rédeas da dor e do desespero, mas as vezes precisava que alguém segurasse as rédeas por ela, quando a situação ficava fora dos limites humanamente possíveis de controle, tolerância.
Mesmo após o final do plantão, permanecia um pouco mais. Sentava-me ao lado e massageava seu pé não queimado, coisa que se tornou um hábito, que ela gostava, que ajudava-a a relaxar um pouco. O toque é algo muito importante para quem está hospitalizado, especialmente acamado por muito tempo. No caso de Mônica, era ainda possível algum toque. Mas quando não é possível, o olhar tornar-se o único toque. Não vale menos, jamais deve ser subestimado, só é diferente. A queimadura exala um odor ruim, tem um aspecto impactante e é desfigurante, assim, a auto-estima do paciente queimado fica quase que completamente destruída pela queimadura. A gente que cuida nunca pode se esquecer que naquela queimadura existe uma pessoa, assim como em qualquer outra enfermidade, a identidade da pessoa tem que estar em primeiro lugar.
Mônica costumava me mostrar suas fotografias antes do acidente. Dizia assim: "Simone, você viu como eu era bonita?" Prá mim, o conceito de beleza era diferente. Conseguia ver a beleza dela além da queimadura. Doenças, lesões, são CONDIÇÕES, não DEFINIÇÕES. São parte da vida de alguém, não a essência de alguém. O olhar dela olhando para fotografia era de saudade da Mônica que ela gostava de ser. Como as pessoas da idade dela, Mônica tinha suas vaidades e uma identidade que queria mostrar para o mundo. Agora olhava para si e via destruído o sonho de se ver sendo admirada pela beleza física que tanto prezava. Era um olhar de arrependimento, de culpa, de derrota por conta de um ato, que no caso dela fora impensado, intempestivo, passional.
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Nosso relacionamento tornou-se mais e mais profundo a cada dia de presença e de cuidado. Sempre me esperava de manhã, com um olhar de saudade, sorridente e doce. Um olhar que me fazia sentir sempre bem-vinda, especial, importante. Assim também queria que ela se sentisse comigo. Ao longo do tempo, os olhares ficaram cada vez mais facilmente traduzíveis entre nós. Era como se falássemos uma lingua secreta. Sabia quando ela estava com medo, vergonha, dor, inquieta, em isolamento, esperançosa, cheia de fé e sem fé alguma, tudo pelo olhar. Todos os olhares tinham uma história por detrás, sem precisar de palavras para validá-los.
Era horário de visita na UTI. Aquele dia estava muito lindo... Os raios de sol de fim de tarde invadiam a enfermaria pelas janelas. A energia tão viva do lado de fora, tão necessária, trazia energia para o lado de dentro, num ambiente onde tudo era muito pungente, emocionalmente exaurível, povoado por muita dor, perda, desespero, choros, gritos, gemidos, apelos (embora devo lembrar igualmente que neste mesmo espaço, existem vitórias, superações, muita gratificação, carinho, amor pela vida e pelas pessoas). O barulho das máquinas, o corre-corre dos profissionais, o sufoco da luta pela vida no leito dos pacientes. A UTI é um lugar que nunca adormece de fato. O exercício do olhar é fundamental todo tempo.
Como Mônica estava com uma visita, fiquei à distância para que tivessem privacidade. Mas durante todo tempo, percebi o olhar dela me acompanhando onde quer que fosse. Era um olhar fixo, insistente, com um tom de urgência. Um olhar que tinha algo singular, diferente de todos os outros até então. Era um olhar que não me deixava ir.
Quando a visita se foi, Mônica pediu-me que ficasse um pouco mais ao lado dela. O olhar continuava fixo. Disse o quanto gostava de mim e eu o quanto gostava dela. Assim que adormeceu, fui para casa. Aquele olhar ficou como uma impressão digital na minha cabeça. Havia alguma coisa à mais nele, mas ainda não tinha a resposta para decifrá-lo.
No dia seguinte, as 6:00 da manhã cheguei na UTI para vê-la, como sempre fazia. Deparei-me com dois médicos tentando ressuscitá-la. As tentativas foram muitas, mas o coração de Mônica que já estava tão comprometido, não voltou. Sabia que por dias à fio, ela estava morrendo, mas apesar de saber da verdade, a gente não deseja que ela se concretize nunca, quando nos apegamos assim a alguém. Já havia me acostumado a cuidar dela, estar com ela, gostar dela, olhar para os olhos dela conversando com os meus. A afirmação de que o profissional da Saúde é frio, não se apega, não se envolve, é mito. Somos todos humanos vivendo uma experiência profundamente humana com nossos pacientes.
Quando a intervenção médica acabou, massageei o pé de Mônica como de costume e fiz uma oração. Em seguida, dei-lhe o último banho, preparei o corpo e fiz questão de levá-lo eu mesma para o necrotério. Lá fiquei um pouco mais com ela, lembrando daquele curioso olhar do dia anterior. Penso que foi o jeito que encontrou para despedir-se de mim. Com um olhar insistente, daqueles impossíveis de ignorar o brilho, a ternura, o interesse. Estou certa de que, naquela tarde, Mônica sabia que estava morrendo. Fiquei tão, mas tão feliz e grata que ela tenha achado um jeito de se despedir de mim, com aquele olhar mágico que ainda está vivo em mim depois de tantos, tantos anos. Um olhar com tantos significados que poderia preencher mil enciclopédias. Aquele olhar foi um presente de valor incalculável. Foi um dia de muita reflexão, saudade dela, tristeza, dá aquele vazio que a dor da perda causa. Mas com a morte, todo aquele sofrimento tão impiedoso cessou. Mônica estava livre. Olhei para o céu e pensei: o olhar dela deve estar em algum lugar lá em cima. Sorri para o céu, quem sabe ela pudesse me ver.
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Minha história com a Mônica foi fundamentalmente uma história de olhares. O olhar permeou nosso relacionamento naquele leito de hospital do início ao fim. Ler o olhar foi imprescindível, porque o olhar preenche o silêncio quando a boca cala. Por isto não temos que ter medo do silêncio. O silêncio é necessário para a alma falar. Acredito categoricamente que o olhar revela a alma de cada um e é na alma que nossos sentimentos, nossa essência, nossa verdade moram.
Através desta história partilhada, deixo vocês saberem sobre a importância da troca numa simples coleção de olhares. Ultimamente, temos estado negligenciando o olhar nas nossas relações com conhecidos e desconhecidos. Porque criamos a obsessão de olhar demais numa tela de um aparelho eletrônico, estamos perdendo o bonde de tantas histórias, tantos chamados de atenção, de afeto, de bem querer. O olhar e o toque entre as pessoas estão entrando em extinção mais e mais dia após dia. Resgatem a arte de olhar antes que seja tarde. Olhar nos olhos do outro tem um tipo de calor humano e valor que nenhuma tela de computador ou telefone ou câmera pode transmitir, traduzir.
Mônica ensinou-me a exercer o melhor da minha humanidade fazendo trocas com a humanidade dela. Desde o primeiro dia em que entrei naquela UTI até o último, uma história de amor incondicional, entendimento, companheirismo e confiança foi escrita de olhar em olhar. Os olhares foram os protagonistas de todas as situações fossem elas de alegria, medo, angústia, alívio, esperança, dor, dúvida e silêncio, todas experiências humanas.
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A gente tem que se olhar mais, porque olhar valida a existência, a essência de quem a gente olha assim como a nossa para o outro que nos olha. Já pensaram quanta coisa importante desaparece quando paramos de ter curiosidade no olhar? O mundo da gente fica tão estreito, ínfimo, tão menos colorido e por demais empobrecido de possibilidades e entusiasmo.
Na rua, por exemplo, porque estávamos olhando para uma tela o tempo todo, perdemos de vista um sorriso, uma imagem de alguém tendo um gesto de bondade, deixamos de ver a beleza dos raios do sol no fim da tarde, perdemos a oportunidade de fazer um amigo ou uma reconciliação, deixamos de assistir a metamorfose das mudanças de estação, as flores num jardim, o charme do movimento, a diversidade das pessoas, enfim, a vida desfilando no seu apogeu, nas suas múltiplas dimensões.
Assim, prestem atenção nos olhares ao redor de vocês. Não ignorem olhares. Eles têm uma razão de ser, uma tradução importante, uma troca. O que a gente não consegue dizer, o olhar fala. Pensem nas pessoas que não falam a mesma língua. O que fazem para se entender? Usam gestos, mas sobretudo se olham, trocam mensagens com um olhar. Se as palavras fossem mais importantes, teríamos duas bocas e um olho só, mas não é assim, não é mesmo? Olhares permeiam encontros e despedidas, contam histórias e constróem memórias, memórias que nunca envelhecem.
Quotation-Jenny-Han-saying-Meetville-Quotes-4928.jpg (Ficamos em pé lá, nos olhando e não dizendo coisa alguma. Mas foi aquele tipo de nada que queria dizer tudo.)
Termino deixando um poema que escrevi pensando em todas estas coisas. O poema se chama "Vidas que a gente não vê".
"Resolvi sair e tirar o dia para prestar atenção nas coisas. Não havia reparado na beleza da arquitetura dos edifícios, no degradê de cores nos jardins, na felicidade das flores depois da chuva, no azul fulgurante do céu... Não havia reparado no desfile de frondosas árvores ao longo das ruas, no movimento de pessoas nos cafés, na dinâmica intensa da cidade, nos desdobramentos dos acontecimentos em toda a parte... Não havia reparado nas crianças brincando nos parques, nas estátuas decorando as fontes, no estilo das livrarias... Não havia reparado no aroma das comidas dos restaurantes, no perfume das lojas, nas pessoas debruçadas nas janelas, nos casais de mãos dadas, nos passarinhos conversando em melodias... Não havia reparado, sobretudo, na diversidade das expressões no rosto das pessoas, quantos pensamentos perdidos, sentimentos misturados, escondidos, quanta coisa florescendo e desaparecendo... Tanta vida que a gente não vê vivendo ao redor da gente."
O mais importante é buscar o equilíbrio no que olhamos, no tempo que a gente dedica para olhar para certas coisas e para as pessoas. Olhemos para as telas, mas não esqueçamos ao redor, como as coisas são belas. Combinado?