quarta-feira, 10 de junho de 2015


Para sempre Alice: o Mal de Alzheimer 
Nos fazendo repensar a vida
Para sempre Alice” rendeu a Julianne Moore o Oscar de melhor atriz em 2015. Richard Glatzer - diretor do filme - que faleceu 15 dias depois da Premiação em decorrência da doença ELA - roteirizou o livro “Still Alice” e mostrou ao grande público a desafiadora doença de Alzheimer. O filme - que mostra a perda de memória como sintoma inicial, deixa no espectador sensações impossíveis de esquecer. Equilibre-se diante do Alzheimer.
1536x1024x2.jpgO Mal de Alzheimer atinge aproximadamente 36 milhões de pessoas no mundo, sendo que muitas das pessoas que sofrem com o Alzheimer ainda não receberam o diagnóstico. É uma doença que se agrava progressivamente até levar à morte, pois o corpo perde funções essenciais. Após o diagnóstico, o tempo médio de vida é cerca de 7 anos. Em média, apenas 3% das pessoas diagnosticadas sobrevivem mais do que 14 anos.
A família da pessoa com o Mal de Alzheimer sofre socialmente e psicologicamente, assistindo de mãos atadas a degradação diária de uma pessoa tão importante e fundamental. Quantas dessas famílias não fariam qualquer coisa para voltar no tempo e doar mais amor, carinho e palavras a quem hoje se esqueceu até de sua própria identidade?
Uma carreira de sucesso em linguística, mãe de três filhos, um casamento impecável e apenas 50 anos de idade. É vivendo neste cenário que a Alice do filme descobre que tem o Mal de Alzheimer. Talvez por retratar a doença em alguém tão jovem, o filme traz uma inquietude de pensamento e emociona constantemente.
“Para sempre Alice” nos prende por ser dolorosamente real e possível. Ninguém está imune ao Alzheimer. Não há vacina, não há comportamento de risco a ser evitado, não há prevenção. A única prevenção possível para o Alzheimer, e para tantas outras doenças e perdas na vida, é o cuidado e a dedicação às pessoas no presente.
O filme mostra que o Mal de Alzheimer faz com que até nossos mais profundos sentimentos por alguém sejam esquecidos e deletados de nossa lembrança. Porém, o que nossa mente – mesmo saudável - está ‘esquecendo de lembrar’? Pare e pense por 5 minutos nas palavras que deixamos de dizer às pessoas que amamos e o quanto calamos sobre as sensações boas que algumas presenças nos causam.
Imagine-se vivendo uma vida plena e se deparando – de um momento para outro, com rostos desconhecidos e locais estranhos aos olhos. Imagine-se do outro lado também, sendo o rosto desconhecido diante de sua mãe, pai, irmão, tia ou amigo. O Alzheimer apavora, não?
O filme apresenta isso: a dor de quem tem a doença e a dor da família que vive a impotência diante do inevitável: o esquecimento, a dependência, o vazio e – por fim, o nada! E diante do nada, cada um tem que seguir a sua vida.
Durante várias cenas, somos acometidos por uma ansiedade absurda diante das falas da protagonista, desejando profundamente que ela não esqueça palavras, pessoas e situações. Assistimos Alice como se fôssemos da família, e ficamos com uma dor latejante na alma. Ninguém sai ileso depois dos 101 minutos de duração do filme. Permanece por dias um silêncio interior que analisa nossas próprias ações, falas e movimentos. Pedimos menos e oramos mais por saúde. Pouca coisa importa mais do que isso: saúde, cuidado, dedicação, respeito e carinho. Alice nos mostra isso vivendo sua doença.
Saudáveis, não damos importância à saúde. Assim, praticamos o nosso dia-a-dia com as pessoas que: não damos importância, não damos atenção. Não o suficiente. Não faz parte de nossos pensamentos a possibilidade de acordar em um dia qualquer e não mais reconhecermos os rostos que nos rodeiam, tão pouco a possibilidade de não sermos reconhecidos.
O ser humano vive como se houvesse sempre o outro dia. Vivemos como se houvesse tempo suficiente para tudo o que é fundamental e, nesta utopia do “tempo suficiente”, vamos adiando o que é importante.
Partimos pela manhã, retornamos à noite, enfrentamos o trânsito dentro de ônibus, metrôs ou automóveis, almoçamos em meio ao caos, trabalhamos oito horas ou mais, assistimos à novela, vamos ao cinema, compramos roupas, vamos ao supermercado, pagamos contas e impostos, nos exercitamos, buscamos uma alimentação cada vez mais saudável, bebemos suco verde, meditamos e tentamos ter um contato maior com a natureza em meio à selva de pedra. Mas, de fato, o que é importante?
Será que cuidamos o suficiente do outro e damos atenção aos detalhes? Amamos o suficiente e nos deixamos ser amados? O quanto dizemos que nos orgulhamos de alguém ou salientamos a importância de nossos amigos, irmãos, pais e tantos outros amores em nossas vidas? O quanto contamos sobre o nosso bem-querer por alguém? Estamos esquecendo muita coisa importante neste mundo moderno. Passamos mais tempo acariciando tablets e smartphones do que as pessoas que amamos. Vivemos em um estado de ‘Alzheimer’ permanente. Estamos ignorando o fato de que amar não é somente sentir. Demonstrar carinho faz parte de absolutamente todas as relações humanas. Mas não, não nos doamos além do limite do que achamos seguro.
Não temos como prever quem brevemente vai partir para sempre ou quem vai se ausentar mesmo estando presente, mas podemos ser mais humanos com todos – principalmente com os nossos. No final – somente os bons instantes permanecem no peito e o momento de amar é agora – nunca é depois. Sentimentos são prioridades. Quem garante a vida amanhã? Quem garante a sanidade amanhã?
Dedicar-se é uma das maiores urgências da vida. Poucos praticam a dedicação, mas quem pratica nunca terá do que se arrepender diante do final da existência.
Nunca estaremos preparados para perdas ou doenças que tiram o nosso melhor e o melhor das pessoas. Que comecemos hoje a doar mais tempo e atenção aos que carregamos no peito. Façamos as pessoas mais leves. Sejamos mais leves também.
Fica ainda uma última lição: “Para sempre Alice” acaba repentinamente, como a vida.
Quando não há mais certezas possíveis, só o amor sabe o que é verdade.“ (Do livro “Para Sempre Alice” - de Liza Genova)”